segunda-feira, 27 de maio de 2013

Outra doutrina em que acreditar

Na revista Piauí deste mês, um cientista comemora as novas pesquisas sobre micróbios no corpo humano (leia aqui). Uma linha científica suspeita que os micróbios são tão importantes quanto os genes. Genes que foram idolatrados à época de sua descoberta, descoberta esta antecedida por outra que revolucionou a ciência, que foi antecedida por outra, passando pelo modelo do átomo indivisível, de Dalton, até chegar ao barro, de onde o homem certamente veio.

Se as descobertas científicas antes enaltecidas são depostas por descobertas novas também enaltecidas, por que vamos creditar descoberta alguma? Logo surgirá alguém dizendo que a teoria da importância dos micróbios está errada, que eles sequer existem, e que o ser humano na verdade é feito da pedra filosofal.

Acreditávamos nos dogmas, que foram substituídos pela razão, que dá sinais de fadiga. Depois da fé, depois da lógica, quem vem ? Seria a lógica irracional do caos, propalada pelo Coringa do Batman? Seria a fé suicida fundamentalista? O nacionalismo irrenunciável ianque? A anarquia? O egoísmo? O niilismo? Temos de inventar outra doutrina em que acreditar.

sexta-feira, 3 de maio de 2013

O que precisamos perder

Hoje excepcionalmente saí do trabalho no meio da tarde. O sol, o céu, o flamboyant, tudo isso assustou-me. Assustou-me porque era lindo. As tardes de Brasília passando, e eu as passando dentro de um prédio.

As pessoas reclamam de que a vida moderna consome a nossa juventude, o nosso dinheiro, o nosso tempo. Mas o pior é tomar as tardes de outono. As tardes na grama, as tardes à beira do lago, as tardes para as quais chegarei tarde.

De regra, volto do trabalho às oito da noite. Ontem mesmo eu notei outra que era, pelo menos para mim, uma novidade. Nos arredores da minha quadra, parecia haver um novo estabelecimento, era um letreiro que não estava ali no dia anterior.

Chegando mais perto, entretanto, percebi que não havia loja nova; a mudança era a demolição de uma área considerável, do tamanho de uma quadra poliesportiva, que abriu espaço na rua. O letreiro era de uma galeteria antiga, visível agora de um novo ângulo sem as construções demolidas.

A quadra respirou. Dava para ver a galeteria, o canteiro central arborizado do Pistão Sul e o vazio deixado pela demolição. Ver o vazio é como escutar o silêncio.

Sei que logo voltarei a terminar o expediente à noite e sei que algo será construído, não só naquele espaço vazio, mas em muitos outros espaços, mesmos onde espaço não há mais. Talvez por isso eu tenha deixado por alguns minutos de estudar, trabalhar, me informar, cumprir, obedecer, atender, ceder, conceder. Dediquei esses minutos à tarde e ao vazio, essas entidades metafísicas companheiras do canto dos pássaros, do barulho das águas e das batatas Pringles. Às vezes juventude, tempo e dinheiro seja exatamente o que precisamos perder.

quarta-feira, 1 de maio de 2013

Um russo erra a mão

Contém revelações do enredo de Pais e filhos, de Ivan Turgueniev.

Há algo de especial na literatura russa, ainda mais se a entendermos de forma abrangente, reunindo a área da antiga União Soviética. De lá sai um Tchekhov, um Tolstói, um Dostoiévski, um Gógol, escritores sensíveis, perspicazes e espirituosos, vindos de cultura tão rígida e ortodoxa.

Hoje, porém, falo de um russo que destoa, por mais que os cânones o elejam ao lado dos compatriotas citados. Talvez minha cisma com ele se deva justamente pelo alto nível da turma; um bom escritor no meio aos escritores brilhantes. Ivan Turgueniev.

O livro Pais e filhos, considerado sua obra-prima, recebe elogios diversos. Imputam a ele o retrato da Rússia pós-escravidão, o simbolismo da juventude moderna russa e até méritos de estilo e escrita. Os dois primeiros podem ser verdade, mas é uma verdade atrapalhada pela absoluta ausência do terceiro. "Turgueniev é um tédio", definiu Tolstói, com propriedade, embora influenciado pela desavença que marcou a vida de ambos.

A narrativa não é um confronto entre o novo e o velho, como dizem, pois até os personagens jovens agem como velhos carrancudos. Trata-se apenas de um relato lento, sem acontecimentos, sem a densidade que seus contemporâneos imprimem num Crime e castigo ou num A morte de Ivan Ilitch. O autor parece ter levado o niilismo, o nada, muito a sério. Funciona como representação social, mas não abarca as exigências da literatura, que requer também ludismo.

Bazárov, o protagonista, é antes de tudo um chato, um do contra. Não à toa morre de rapidamente, era melhor matá-lo de vez. Tudo nele é superficial e acomodado, assim como a maneira que Turgueniev retratou a arte, a ciência, o amor.

Vale a leitura como bagagem cultural, como conhecimento de uma época. No entanto, a expectativa há de ser como o propósito da obra: o nada.

sábado, 27 de abril de 2013

O golpe legalizado

Dois projetos legislativos almejam dar um golpe no país: o que tolhe recursos de partidos recém-criados, prejudicando-os na disputa eleitoral, e o que submete decisões do Supremo Tribunal Federal ao Congresso Nacional. Trata-se de golpes legalizados, publicizados e autorizados pelos brasileiros.

Em ambos, os trâmites legislativos estão sendo seguidos, tudo bonitinho, em cada comissão do Congresso, diariamente exposto na imprensa, pelos representantes que nós escolhemos.

Dificultar a vida dos partidos recém-criados mancha a já desequilibrada competição pelo nosso voto. Serão retirados dos partidos novos os poucos meios que teriam para expor suas ideias. O sistema eleitoral ruim seria piorado.

Tirar a palavra final do Supremo fere a independência dos Poderes. Quem, se não o Judiciário, impedirá o desgoverno? A Administração Pública ruim seria piorada.

Mas nossos parlamentares têm os pretextos na ponta da língua. No primeiro projeto, dizem inibir a criação de partidos de aluguel, como se esses partidos não lhes fossem convenientes; no segundo projeto, dizem evitar que o Supremo legisle, como se o espaço ocupado pela Corte não fosse culpa da morosidade do Legislativo.

Podemos tão-somente pedir aos parlamentares que votem contra, podemos apenas tumultuar as votações. No entanto, se os projetos forem aprovados, o que nos resta? Acatar passivamente ou rebelar-se utopicamente.

domingo, 14 de abril de 2013

O problema de todos é o meu problema

Falta ao Brasil coletivismo. Não se trata de socialismo, comunismo, mas de coletivismo. Nossa tradição histórica de abandono do Estado, fazendo com que as pessoas se arranjem cada uma por si, enraizou o egoísmo em nossa cultura.

É a máfia de um só. Onde o Estado está ausente, floresce a máfia, como acontece no sul da Itália, nas comunidades imigrantes nos EUA, nas favelas brasileiras. No nosso país, porém, o problema é generalizado.

Por que o desespero por concurso público, por que jogamos lixo no chão, por que furamos fila, por que votamos em candidatos de facção? Porque almejamos apenas resolver o problema individual em vez de resolver o problema de todos.

Marco Feliciano incorpora essa lógica. Ele é o parlamentar de um segmento. Seus eleitores não querem um representante para todos os brasileiros, que entenda de orçamento, de código penal, de fiscalização do Executivo. Querem, isso sim, defender seus interesses particulares.

Os brasileiros não construímos uma sociedade; colocamos o público a serviço do privado.

segunda-feira, 1 de abril de 2013

Renovação marqueteira

A Igreja Católica acertou no primeiro passo da sua reconstrução. A mudança radical de perfil entre Bento 16 e Francisco indica a preocupação do Espírito Santo, que também anda soprando nos ouvidos da assessoria de comunicação no Vaticano. A Igreja tem aproveitado o alto interesse da imprensa para mostrar o novo papa como um homem sábio, humilde e acolhedor. Como diz José Simão, da BandNews, o papa está em plena campanha.

Naquilo que está ao alcance imediato do papa, a mudança de imagem ajuda a conter a sangria de fiéis e resgatar a imagem do catolicismo. Logo, porém, o desafio será maior: modernizar a fé. Enquanto a ortodoxia e o conservadorismo mandarem na Igreja, os jovens tornar-se-ão seguidores de outras doutrinas, como acontece com os evangélicos no Brasil.

Há cada vez menos espaço aos terços tediosos, às missas modorrentas, à leitura desatenta da bíblia, ao celibato dos sacerdotes e à promiscuidade entre o superno e o terreno. O caminho à modernização é difícil devido à força dos retrógrados, mas é viável, pois a experiência da renovação carismática mostrou-se bem sucedida. Quod sic possibile est.

quinta-feira, 14 de março de 2013

A mão dupla do respeito

Os manifestantes contra o presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados perdem a razão. Eles exigem respeito sem respeitar. O tumulto da sessão de ontem, fomentado por parlamentares contrários ao presidente, apenas favorece os preconceituosos da Comissão.

Lotando a sala de sessões, os manifestantes impediram o andamento dos trabalhos. Isso é inadmissível.  Vale protestar antes, vale reclamar entre uma fala e outra, vale tentar convencer os parlamentares, vale  pleitear a mudança dos membros da Comissão, vale contestar o decoro de Jair Bolsonaro e Marco Feliciano. Só não vale impedi-los de falar.

O parlamento é o espaço da fala, do contraditório, do debate. Cada um fala na sua vez, e o presidente Feliciano não pôde falar. Ele representa uma parcela da população, como representa Érica Kokay ou Jean Wyllys. Se é correto ou não um sacerdote ter mandato eletivo, se são corretas as posições que ele e seus correligionários adotam, é outra história.

O conflito facilita para quem não tem argumentos, como não tem o truculento Bolsonaro e o oportunista Feliciano. Mas não os devemos calar, assim como não queremos ser calados quando nós estamos falando.

sábado, 9 de março de 2013

Libertadores chata

O potencial da Taça Libertadores, o principal campeonato sulamericano de futebol, está subaproveitado. Dona de ingredientes únicos, a competição chafurda em problemas de gestão e de ordem econômica.

Eu queria ver o Barcelona jogar a Libertadores. Provavelmente ganharia, mas o caminho até o caneco é recheado de obstáculos com os quais o europeu, todo confortável em seus trens, seus estádios e seus gramados, não está acostumado. A altitude é um dos mais divertidos.

O que fazer com os times das localidades altas? Excluí-los? Forçá-los a jogar longe de suas raízes? A altitude é um desafio a mais, como é o frio da Rússia ou o calor de Dubai. Outra particularidade são os times mexicanos. É necessário viajar até dezessete horas para enfrentar o Tijuana, por exemplo, o suficiente para cruzar a Europa de avião.

E o gramado sintético? A cantoria interminável dos argentinos? Os confins do Peru? Que tal o Manchester United jogar nessas condições? As dificuldades reduzem a distância técnica entre os times e reforçam as peculiaridades regionais. A Libertadores tem tudo para ser a festa da nossa cultura.

Por que não o é? Porque os dirigentes garantem seus cargos, mas não garantem a qualidade do produto que vendem. Porque os bandidos travestidos de torcedores travestem os torcedores em marionetes da violência. Porque as autoridades imiscuídas no futebol chancelam o cenário do horror.

A Confederação Sulamericana de Futebol (Conmebol) ainda permite que se jogue objetos no gramado, que se entre com rojões no estádio, que os bandidos voltem às arquibancadas. As torcidas do crime organizado ainda exercem sua boçalidade nos atletas e nos torcedores de bem. A polícia não prende infratores, a justiça solta infratores presos, a lei beneficia infratores presos ou soltos.

Perde a televisão que paga por um produto piorado. Perdem os torcedores, que perdem seus entes queridos, que perdem a vida. Perdem os clubes, especialmente os estrangeiros, que não conseguem competir com os brasileiros, tamanha a diferença econômico entre eles.

Assistir a um jogo de time brasileiro contra time hispano-americano é ver ataque contra defesa. Boca Juniors, River Plate, Nacional do Uruguai, Peñarol, Universidad de Chile, nenhum mete medo nos times brasileiros, que contratam os melhores jogadores do continente.

Se um dia houvesse o basta, e os grandes clubes montassem  suas próprias ligas, sem Conmebol, sem CBF, sem Fifa, ou seja, se houvesse concorrência para arrancar o futebol do monopólio que nos domina há décadas, a organização de torneios na América do Sul precisaria se reinventar.

sábado, 2 de março de 2013

Simplificação carismática

Falta à Igreja Católica simplificar. Os apostólicos romanos da Santa Madre Igreja não sabem o que querem: o superno ou o terreno, o espírito ou a estatística, a fidelidade ou a fidedignidade. O buraco em que a Igreja se encontra foi cavado por ela mesma.

Os fiéis debandam simplesmente porque o catolicismo carece de crédito. São muitas contradições, muita teimosia e muita pedofilia. Vende-se a imagem divina e age-se como um ser humano. Afinal, o papa é poderoso como um santo ou frágil como um homem?

Ele não é pop, não é top, não é pope. Pediu para sair com o bonde andando, deixando o rojão para outro. É claro que a idade pesa. Quem mandou eleger alguém tão idoso. O Divino Espírito Santo? Então renunciar vai contra o Divino Espírito Santo? Credo.

O que Deus faz o homem não desfaz. Joseph Ratzinger desfez o escrutínio de Deus, que ao mesmo tempo é três. Começa a discussão sobre o sucessor. Que discussão? Basta se trancar numa sala e esperar o sopro celestial nos ouvidos.

Uma simples conversa com protestantes indica que o catolicismo perde fiéis porque as pessoas perdem identificação com celebrações quadradas e sermões repetitivos. Elas querem misturar o cotidiano com religião, professar a fé sem celibato, auferir conquistas sem culpa. Não aceitam mais ouvir pregação sobre humildade e ver a Igreja enriquecer.

Fervilham histórias de gente que arranjou emprego, ganhou dinheiro, melhorou de vida depois que aceitou Jesus. Assim religião fica muito mais atraente, como descobriram os evangélicos. É perfeitamente válido, e desejável, haver alternativas menos gananciosas na fé. O catolicismo pode investir nisso: o espaço da temperança, da mansidão e da humildade. Há nicho de mercado.

Porém, a estratégia só funciona se aplicada pelo clero. Conchavos, intolerância e cegueira autoimposta estragam tudo. É bom começo admitir os erros e pôr os pés no chão a fim de alcançar o céu. A inquisição, agora da retórica, não serve para o século XXI.

sábado, 23 de fevereiro de 2013

Mes amis les mis

Nunca vi uma adaptação engrandecer o original adaptado, como fazem Os miseráveis de Tom Hooper. O musical parece extensão do livro, preenche, completa, complementa.

A técnica apurada na fotografia, no figurino, no cenário faz a investigação psicológica de que carece a prosa de Victor Hugo. Talvez o fato de ver a miséria, como o cinema permite, seja mais impactante que a imaginar, como a literatura determina.

A tragédia combina com a música, por isso Os miseráveis, O fantasma da ópera, entre outros, rendem musicais antológicos. A vida com música é esplendida: em vez da sem-gracice dos diálogos mundanos, vem a delicadeza das sete notas. Para quê viver, encenar, falar se podemos fazer tudo isso cantando e dançando?

A literatura é a maior das artes; literatura com música é grandiosa. Literatura, musicada no cinema então...!

Das críticas que li ao trabalho de Hooper e dos atores, nenhuma tocou no ponto mais sensível: as duas horas e meia de filme são aceleradas demais. Desconfio de que alguém que não tenha lido o livro tenha se perdido no ritmo vertiginoso do musical, ritmo esse bem diferente no original romanceado, mais lento.

Se O hobbit será dividido em três partes, Os miseráveis mereciam divisão similar. Provavelmente os interesses comerciais que incharam a adaptação do livro de Tolkien forçaram a compressão do de Hugo. Os mesmos interesses, e a dificuldade inerente, também devem ter impedido que o musical fosse feito em francês, o que o engrandeceria ainda mais.

No mais, as censuras são infundadas. O canto de Hugh Jackman e Russel Crowe não está entre os melhores, mas é digno é louvável pela ausência de correção eletrônica. Os atores que incorporaram Marius e Cosette são insípidos, mas os personagens também o são.

A crítica mais insensível é a que acusa o musical de ser água com açúcar, meloso, melodrama. Estamos falando de Romantismo, subjetivo e dramático por definição. Pode-se não o aprovar como preferência pessoal, mas o Romantismo representa uma época da humanidade cujos desdobramentos permeiam a humanidade até hoje.

É um grande trabalho de Hooper e seus colegas. O diretor demonstrou muita habilidade ao fazer os seus Miseráveis em vez de imergir na natimorta ideia de adaptar o livraço na íntegra. Tudo o que acontece no musical acontece no livro (com exceção de uma cena, ao final), mas acontece de modo distinto do do livro, permitindo apreciarmos o engenho de dois artistas: o romancista francês e o cineasta britânico. Tal façanha por si só deve levar o espectador ao cinema.